Pular para o conteúdo principal

Ociosidade e a Ineficácia das Medidas Socioeducativas

Ociosidade marca sistema socioeducativo
para menores infratores do Mato Grosso
11/11/2011


O relatório do Programa Justiça ao Jovem, criado pelo CNJ (Conselho Nacional de Justiça (CNJ) para avaliar a execução da medida socioeducativa de privação de liberdade aplicada a quem tem de 12 até quase 18 anos de idade mostra que a falta de atividades destinadas à ressocialização é um dos maiores problemas das unidades de internação para adolescentes em conflito com lei no Mato Grosso.

O documento, divulgado nesta semana, foi elaborado após visitas aos estabelecimentos mato-grossenses, realizadas de 8 a 13 de maio deste ano.

De acordo com o relatório “apesar de as unidades promoverem algumas atividades esportivas ou culturais, tais como futebol, basquete e voleibol, os adolescentes permanecem a maior parte do tempo recolhidos em seus alojamentos, inclusive para fazerem suas refeições”. O documento enfatiza que tal situação “compromete sobremaneira o atendimento socioeducativo, estigmatizando os adolescentes e desconsiderando-os como pessoas em desenvolvimento”.

A escassez de cursos de profissionalização foi outro ponto destacado pela equipe do CNJ. Segundo o relatório, os adolescentes têm acesso ao ensino fundamental e médio, mas a carga horária das aulas não ultrapassa duas horas diárias.

“A ociosidade ainda é um aspecto marcante no sistema socioeducativo do Mato Grosso”, afirmou Daniel Issler, juiz auxiliar da presidência do Conselho e coordenador do Programa Justiça ao Jovem, juntamente com Reinaldo Cintra Torres de Carvalho, também juiz auxiliar da presidência.

Conforme informou Issler, o ideal seria a realização de atividades pedagógicas, de lazer, culturais, esportivas e profissionalizantes o máximo de tempo possível. “Somente assim os adolescentes podem crescer com o sistema socioeducativo. A ociosidade é um estimulo à vivência infracional e coloca em risco a segurança da própria unidade de internação”, comentou o magistrado.

Outro problema verificado pela equipe do CNJ diz respeito à estrutura física das unidades, que são precárias, não apresentam condições adequadas de higiene e se assemelham a prisões. Constatou-se que até bem pouco tempo eram empregados agentes penitenciários para cuidar dos adolescentes internados. Os jovens, por sua vez, queixaram-se de agressões dos funcionários.

O juiz explicou que o sistema socioeducativo do Mato Grosso passa por mudanças. Pouco tempo atrás estava vinculado à Secretaria Estadual de Segurança Pública, mas no final de 2010 passou a ficar sob a responsabilidade da Secretaria Estadual de Justiça e Direitos Humanos. Além disso, o governo estadual realizou concurso público para a contratação de servidores e deu início à construção de novas unidades de internação.

O aspecto processual também foi destacado no relatório. Muitos juízes do interior mato-grossense, ao encaminhar os jovens para cumprimento de medidas de internação nas comarcas onde funcionam as unidades, acabam por não delegar a competência ao magistrado local para acompanhar a execução da medida.

“O juiz que está mais próximo do adolescente nem sempre é o que decide sobre a execução da internação. Nestes casos, quem tem o poder de decisão é o juiz que está mais distante. No entanto, esse magistrado não tem as melhores condições para aferir a situação do adolescente. Entendemos que o mais adequado seja o juiz da comarca onde está a unidade ser o responsável pela execução”, explicou Issler.

 
Fonte: Última Instância

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Violência doméstica e pena criminal

Por que as pessoas estão mais sujeitas a serem objeto de violência e, até, vítimas de homicídio em seus próprios lares e pelas mãos de alguém a quem amam? E ainda: por que as mulheres que são humilhadas e sistematicamente objeto de sevícias e lesões, continuam a viver com seus algozes? Por que após uma cena de violência física segue-se, por vezes, um momento de redenção, em que os parceiros experimentam a sensação de estarem mais ligados emocionalmente? Essas e outras questões desafiam a perícia de psicólogos, terapeutas familiares, advogados e de todos quantos se interessem pelo problema. A violência doméstica possui características e contornos muito próprios. Nas relações violentas existe sempre um sentimento compartilhado, que é a raiva, mesclada a uma série de vivências emocionais, conjunto este que pode ou não ser exteriorizado, mas ele está lá, internamente.  Nos Estados Unidos, por exemplo, muitos estados aprovaram leis específicas, diferenciando essa forma de violência dos...

Palavrões e descrição de atos de conotação sexual em sala de aula

(22.03.11) Uma professora do Colégio Inovação Ltda., da cidade de Bauru (SP), conseguiu reverter sua demissão por justa causa em demissão imotivada, que lhe dá direito ao recebimento das verbas rescisórias. Ela também vai receber reparação por danos morais no valor de R$ 5 mil reais. A professora foi dispensada sob a acusação de ter agido incorretamente e empregado palavrões em sala de aula. O fato ocorreu quando a professora falava aos alunos da 8ª Série do Ensino Fundamental a respeito de trotes violentos praticados na ESALQ - Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, integrante da Universidade de São Paulo. Segundo o colégio, a professora teria usado “palavras de baixo calão e descrito atos de conotação sexual de forma desvirtuada”, mas a decisão de demiti-la foi tomada somente após a escola receber carta do pai de uma aluna reclamando da conduta da professora. Sentindo-se injustiçada, ela ajuizou reclamação trabalhista pedindo, além da reversão da justa causa, indenização...

Trabalho juvenil no Brasil: análise sob a perspectiva de gênero

O cenário do trabalho juvenil elucida peculiaridades em relação às quais é necessária a reflexão. A OIT (Organização Internacional do Trabalho) apresenta alguns fatos e números sobre a realidade brasileira que chamam a atenção. Vejamos: - Cerca de 23% da população brasileira é formada por jovens, dos quais 52,5% estão ocupados; - Cerca de 36% dos jovens brasileiros frequentam a escola. Destes, 71% só estudam e 14% estudam e trabalham; - Cerca de 52% dos jovens estão ocupados. Quase um terço deles recebe até um salário-mínimo; - Cerca de 22% dos jovens não estão estudando nem trabalhando, sendo que os mais afetados são as mulheres e os negros ou pardos. - As jovens mulheres que não estão estudando nem trabalhando dedicam, em média, mais de 26 horas por semana ao trabalho doméstico, enquanto entre os jovens homens essa carga é de menos de 11 horas. Múltiplos são os aspectos que justificam a precariedade do trabalho do jovem, a subutilização de sua força de trabalho, o seu desemp...