Pular para o conteúdo principal

Cooperação entre sociedade e Poderes contra as milícias

O princípio da cooperação deve reger as relações entre os entes federados e os Poderes da República — e o mesmo espírito cooperativo deve orientar a postura do Legislativo e do Judiciário. Não poderia a União, portanto, omitir-se acerca do caos instalado na segurança pública do estado do Rio de Janeiro. Afinal, diferentemente de Gotham City, não dispomos de um Batman para salvar a capital fluminense do grave problema das milícias — grupos de extermínio que ofereciam proteção em favelas da zona oeste carioca nos anos 1990 e, hoje, estão sendo combatidos em pelo menos 12 estados.

O modo de agir é semelhante ao estabelecido no Rio: milicianos financiam negócios irregulares, fazem grilagem de terra, contratam policiais responsáveis por ameaças, extorsões e homicídios, e agora estendem seus tentáculos criminosos assumindo mandatos no Poder Legislativo.

Qualquer um de nós pode ingressar na estatística dos assassinatos, como aconteceu, com a vereadora Marielle Franco, em 2018; com a juíza Patrícia Acioli, em 2011; e com a diretora da Penitenciária de Bangu, Sidnéia Santos de Jesus, em 2000. Desembargadores do Rio recebem treinamento semelhante ao ministrado aos policiais, oferecido pelo Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope).

Onde impera o descrédito institucional forma-se um caldo de cultura para a atuação das empresas (regulares ou irregulares) de segurança privada, cujos "serviços" envolvem desde a instalação de câmeras, de grades e cercas elétricas ao fechamento de vias públicas por meio de cancelas, em violação às normas urbanísticas e de trânsito. O enfrentamento da criminalidade requer mais do que uma dotação orçamentária; afinal, 134 policiais foram mortos (em combate ou executados), somente em 2017, dados que indicam uma média de um policial morto a cada dois dias.

Nas favelas do Rio, menores de idade trabalham no tráfico de drogas, o que é considerado uma das piores formas de trabalho infantil pela Organização Internacional do Trabalho, e nos permite dizer que o Brasil possui um "exército" infantojuvenil destinado à narcotraficância.

A grave situação exigirá muito esforço e cooperação da sociedade e de todos os Poderes da República. É preciso, urgentemente, aprimorar os órgãos de segurança pública, provendo-lhes as condições para o cumprimento das atribuições: investimentos em formação e treinamento, inteligência, tecnologia e equipamentos (armamentos, viaturas, coletes balísticos), acompanhamento da saúde física e mental do policial. E, principalmente, formar batalhões de educação e de saúde para atender a população de baixa renda.

Por Reis Friede

Fonte: Conjur

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Palavrões e descrição de atos de conotação sexual em sala de aula

(22.03.11) Uma professora do Colégio Inovação Ltda., da cidade de Bauru (SP), conseguiu reverter sua demissão por justa causa em demissão imotivada, que lhe dá direito ao recebimento das verbas rescisórias. Ela também vai receber reparação por danos morais no valor de R$ 5 mil reais. A professora foi dispensada sob a acusação de ter agido incorretamente e empregado palavrões em sala de aula. O fato ocorreu quando a professora falava aos alunos da 8ª Série do Ensino Fundamental a respeito de trotes violentos praticados na ESALQ - Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, integrante da Universidade de São Paulo. Segundo o colégio, a professora teria usado “palavras de baixo calão e descrito atos de conotação sexual de forma desvirtuada”, mas a decisão de demiti-la foi tomada somente após a escola receber carta do pai de uma aluna reclamando da conduta da professora. Sentindo-se injustiçada, ela ajuizou reclamação trabalhista pedindo, além da reversão da justa causa, indenização...

Violência doméstica e pena criminal

Por que as pessoas estão mais sujeitas a serem objeto de violência e, até, vítimas de homicídio em seus próprios lares e pelas mãos de alguém a quem amam? E ainda: por que as mulheres que são humilhadas e sistematicamente objeto de sevícias e lesões, continuam a viver com seus algozes? Por que após uma cena de violência física segue-se, por vezes, um momento de redenção, em que os parceiros experimentam a sensação de estarem mais ligados emocionalmente? Essas e outras questões desafiam a perícia de psicólogos, terapeutas familiares, advogados e de todos quantos se interessem pelo problema. A violência doméstica possui características e contornos muito próprios. Nas relações violentas existe sempre um sentimento compartilhado, que é a raiva, mesclada a uma série de vivências emocionais, conjunto este que pode ou não ser exteriorizado, mas ele está lá, internamente.  Nos Estados Unidos, por exemplo, muitos estados aprovaram leis específicas, diferenciando essa forma de violência dos...

Trabalho juvenil no Brasil: análise sob a perspectiva de gênero

O cenário do trabalho juvenil elucida peculiaridades em relação às quais é necessária a reflexão. A OIT (Organização Internacional do Trabalho) apresenta alguns fatos e números sobre a realidade brasileira que chamam a atenção. Vejamos: - Cerca de 23% da população brasileira é formada por jovens, dos quais 52,5% estão ocupados; - Cerca de 36% dos jovens brasileiros frequentam a escola. Destes, 71% só estudam e 14% estudam e trabalham; - Cerca de 52% dos jovens estão ocupados. Quase um terço deles recebe até um salário-mínimo; - Cerca de 22% dos jovens não estão estudando nem trabalhando, sendo que os mais afetados são as mulheres e os negros ou pardos. - As jovens mulheres que não estão estudando nem trabalhando dedicam, em média, mais de 26 horas por semana ao trabalho doméstico, enquanto entre os jovens homens essa carga é de menos de 11 horas. Múltiplos são os aspectos que justificam a precariedade do trabalho do jovem, a subutilização de sua força de trabalho, o seu desemp...